Igrejas locais X Agências Missionárias?

Por Bráulia Ribeiro

A questão parceria ou auto-suficiência vai além do aspecto teológico. Chega até à nossa cosmovisão, ao nosso universo conceitual. O que é igreja para nós?

Este discurso é muito comum na igreja brasileira. Se você quer saber mais sobre este assunto leia este artigo. Ele vai te ajudar a entender melhor o corpo de Cristo e a relação missão/igreja local…





SOBRE A NECESSIDADE DE SE REINVENTAR A RODA


O tema: “parceria com agências missionárias” X “igrejas auto-suficientes” tem sido intensamente debatido no Brasil, mas parece que não necessariamente entendido ou resolvido. Muitos pastores e missionários, ora ouvindo um lado, ora ao outro rezam pela cartilha do modismo do momento sem se dar ao trabalho de entender os princípios por trás de uma ou outra idéia. Outros pastores decidem baseados em sua experiência pessoal com as agências missionárias. Se a experiência foi boa, recorrem à parceria, se foi frustrante abandonam esta idéia e começam a construir seus próprios mecanismos enviadores.
Não pretendo através deste artigo tentar resolver definitivamente a questão, até porque muitos poderiam me julgar como uma voz parcial. Sou missionária, tempo integral com a mesma agência há mais de 20 anos. Mas quero dizer que sou também membro atuante numa igreja local onde tenho me congregado fielmente pelos últimos dez anos, apoiando, com meu esposo, as iniciativas desta igreja sempre que as circunstâncias nos permitem. Não consigo me imaginar vivendo sem o apoio espiritual e social de minha igreja local, e não enxergo a existência da missão na qual eu trabalho sem a igreja, em todas as suas formas…


A cultura e nossa definição de igreja
A questão parceria ou auto-suficiência vai além do aspecto teológico. Chega até à nossa cosmovisão, ao nosso universo conceitual. O que é igreja para nós? 

Na verdade, toda a revelação de Deus ao homem está sujeita aos filtros culturais. Deus criou os seres humanos com capacidade de definir seu comportamento e de passar adiante suas crenças e idéias. Isto é: de criar sua cultura.

Mas, como tudo na cultura humana após a queda, algumas idéias foram ligadas a palavras erradas, foram encurtadas, reduzidas, distorcidas no processo de se humanizarem, de se espalhar por sociedades, de sofrer influências da nossa cosmovisão decaída e limitada.
Veja o que aconteceu com a palavra igreja. Quando falamos “igreja”, no que é que pensamos? Seja o imenso predião barroco católico ou o simpático templinho pentecostal ou os arrojados espaços alternativos das grandes comunidades, sempre o que nos vêm à mente é uma edificação, um espaço físico ao qual chamamos igreja. Mas será que era este o sentido de igreja no novo testamento?

A nossa palavra para deriva diretamente da palavra grega usada no Novo Testamento: ecclesia. Ecclesia em todo seu uso neo-testamentário sempre significa assembléia, e o tipo de assembléia sempre definido pelo contexto. Não há nenhuma circunstância no Novo Testamento em que a palavra ecclesia tenha sido usada no sentido de local de reuniões, ou local de adoração. Igreja, no sentido bíblico nunca foi um templo mas sim as pessoas. Um grupo de pessoas que professam Jesus. E o único requisito para se pertencer à igreja não é ter carteirinha de membro nem estar dentro de um certo templo, mas sim ter recebido Jesus, ter aceitado seu senhorio, e a limpeza dos pecados pelo seu sangue!!
O conceito “igreja” é um conceito espiritual, não é físico, não é institucional, não é legal, e não é denominacional tão pouco. Estas três últimas palavras de certa forma são sinônimos do mesmo conceito mas são entendimentos bem populares… Desta interpretação da palavra igreja, “igreja=instituição” se derivou a idéia de que as missões independentes ou missões de fé (que não são as juntas denominacionais) são para-eclesiásticas. Para= paralelo, eclesia=igreja.


As duas faces da mesma igreja no plano redentivo de Deus

A igreja neo-testamentária que muitos em estudos usam como paradigma absoluto na busca da igreja segundo Deus, na verdade não passava de sinagogas cristãs. Há cem anos antes de Jesus muitos judeus viajavam fazendo prosélitos, por todo o império romano. Os pontos de pregação de Paulo em todas as suas viagens eram as sinagogas judaicas construídas por todo o império e até na Ásia. Paulo construiu sobre estes fundamentos da lei mosaica pregados antes dele. Nestas sinagogas se reuniam judeus e prosélitos gentios, e mais tarde Paulo encontrou-as cheias de gregos que criam mas que não haviam se tornado prosélitos, o que o empurrou para o ministério de ensiná-los a serem cristãos legítimos sem que tivessem que se tornar judeus.
Esta estrutura organizada em forma de sinagoga judaica é a primeira que encontramos nas páginas do Novo Testamento, mas não é a única. Paulo e seu grupo, uma equipe missionária itinerante, formam a segunda estrutura social, uma outra expressão da mesma igreja. Paulo foi enviado de Antioquia, mas funcionava independentemente com sua equipe. Tomava suas próprias decisões, era economicamente independente quando necessário, ou dependia de outras congregações que não Antioquia, algumas que ele próprio ajudara a levantar. Antioquia o enviara mas não tinha controle sobre ele. Ele se submetia a elas, se reportava a eles mas gerenciava seu próprio ministério de acordo com a liderança de Deus.
Não podemos ver no Novo Testamento uma definição concreta do funcionamento nem das congregações locais nem da equipe itinerante de Paulo. Mas o que vemos é que as duas estruturas se diferenciavam entre si, eram auto-controladas, mas co-existiam em uma simbiose que criou a estratégia de evangelização no primeiro século e daí em diante.

O missiólogo/sociológo Dr. Ralph Winter estudou estas estruturas em funcionamento em toda a história da igreja e relacionou-as aos termos da sociologia, sodalidade e modalidade. A estrutura congregacional não faz distinção entre sexo e idade, não tem pré-requisitos para a entrada, (o cristão a recebe automaticamente no ato de sua conversão) e tem como talento principal a alimentação, o cuidado materno com o crente. Esta estrutura é chamada de modalidade.


Modalidade: Se refere a estrutura da igreja institucional, da congregação local, voltada para gerar alimentar e fazer crescer o crente.


A outra estrutura chamada de sodalidade já implica numa decisão além da decisão de se aceitar a salvação, implica na aceitação de um estilo de vida alternativo ao da sociedade envolvente. Esta estrutura tem seus requisitos para a aceitação de membros e sua vocação principal é a de desempenhar tarefas específicas dentro do reino de Deus.


Sodalidade: Se refere às estruturas missionárias, voltadas para a execução de tarefas específicas necessárias para a proclamação do evangelho.


Ou seja havia naquela época de Paulo e existe até hoje a igreja que ficava (modalidade: igrejas locais) e a igreja que viajava (sodalidade: agências missionárias). Estas duas formas complementares não competem entre si mas vivem pelo mesmo propósito principal: levar o evangelho de Jesus aos confins da terra. O ir ou ficar não era uma questão de chamado porque todos, sem excessão, estavam convictos de seu propósito principal de espalhar o evangelho. Mas o que fazia a diferença era a estratégia do momento. Mas tanto a modalidade quanto a sodalidade não podiam se definir como igrejas locais se isto quer dizer que são isentas de ter a visão mundial do reino. Neste sentido a igreja local que se define unicamente por servir interesses do reino apenas em uma determinada região não existe biblicamente, isto seria o mesmo que dizer que existem cristãos que são salvos só para si. As duas expressões do corpo tem que ter visão mundial, mas só a sodalidade tem no “ide” a sua própria natureza.


A igreja e suas diferentes expressões culturais

A minha primeira experiência missionária transcultural foi numa tribo no sudoeste da Amazônia. Eu ajudava uma equipe de implantação de igrejas a aprender a língua do povo do local. Estudávamos com afinco, construíamos barracos para morar, pescávamos e plantávamos para comer, numa rotina intensa e equivalente à do povo onde vivíamos. O povo, por ter tido algum contato com o evangelho antes, logo quis reunir-se conosco para ter cultos mesmo não sabendo o que isto significava. Daí a pensarmos que tínhamos realmente uma igreja no local foi um passo.
A nova igreja, (lembre-se que igreja são pessoas) todos com o conceito igreja/templo na cabeça, logo quis um local de reuniões. Os índios trabalharam para fazer uma casinha palafita com teto de palha e sem paredes que servisse de templo à noite e escola de dia. Os missionários concordaram e já marcaram o programa de cultos: quartas e sábados, cultos gerais; segundas e terças uniões feminina e masculina; e no domingo, duas sessões manhã e noite.

Primeiro a comunidade começou a passar fome aos domingos. Como era dia de escola dominical e o povo não podia sair para pescar, ninguém comia. À tarde, as crianças catavam frutas, as mulheres iam pras roças, mas os homens não saíam atrás de peixe porque era “dia do Senhor”, que passou a ser um dia triste e de muito mau humor ao invés de ser um dia alegre. O número de pessoas que contraíam malária também começou a aumentar. Como tínhamos alguns dias de reunião às noites e todos iam, doentes ou não, os mosquitos faziam a festa. Era o dia de culto ao sangue da seita dos pernilongos locais…

O funcionamento dos cultos também era complicado. Na hora de cantar todos estavam sedentos e alegres e cantavam até estourar a garganta. Então começava a pregação do missionário titubeante e então todos dormiam até roncar. A “palavra” não estava penetrando nos corações? Seriam eles duros demais? Não estavam mesmo a fim de Deus? Em todos os momentos, exceto naquele, eles se demonstravam profundamente interessados. O que estava acontecendo? Nós não tínhamos muita experiência, nem muita formação missiológica, mas sabíamos que alguma coisa estava muito errada…

Depois de algumas semanas de experiências frustrantes os missionários se reuniram para… advinhe o quê? Tentar entender o conceito supra-cultural de igreja… De repente nós descobrimos que a forma que a igreja tinha do lado de fora não era necessariamente a mesma que iria funcionar entre aquele povo…

Meu conceito do que é a igreja começou aí a passar por uma grande reforma que perdura até hoje. Pensarmos na igreja como uma instituição denominacional arruinou por muito tempo o trabalho de missões mundiais. Muitos países foram alvos de missões modelo “franchaising” que pareciam mais iniciativas de colonialismo cultural do que de espalhamento do maravilhoso evangelho supra-cultural de Jesus. Até o formato arquitetônico de templos foi copiado de um país para o outro, sem falar em regras de costumes, formato de cultos, modelos de liderança, etc. Ensinos bíblicos foram praticamente transliterados e não adaptados às novas culturas, hinos traduzidos, estilos musicais culturais próprios reprimidos em favor do estilo musical importado, considerado “santo” e muitas outras coisas.


Franchaising: Modelo para se estabelecer um negócio reproduzindo-o exatamente igual em outro lugar. Um bom exemplo são as redes de Fast food como o Mc Donalds.

Não eram mal intencionados os missionários não, é claro. Não saíram de seus países pensando: “Vamos destruir as culturas com nosso evangelho enlatado…” Claro que não! Se sacrificaram e nos trouxeram a jóia mais preciosa que tinham nas suas vidas: a revelação da salvação no Senhor Jesus… Mas junto com esta revelação veio também sua definição cultural de igreja, os padrões sociais, organizacionais, musicais e estéticos que constituiam a igreja /instituição pela qual foram enviados.

A igreja espiritual, no entanto, é multiforme. E esta “multiforme sabedoria” de Deus se expressa através das gentes. A igreja espiritual não é etérea, fantasmagórica tampouco. Tem formas explícitas, suarentas, feias ou bonitas, às vezes estranhas ou bem conhecidas que são as gentes. A igreja são as pessoas que a compõem. Digo isto para que tenhamos em mente esta ligação espírito-gente. Não existe ação do Espírito de Deus sem que seja através das pessoas… Não existe igreja que não seja pessoas e nada além de pessoas.

A igreja do Novo Testamento teve muitas formas. Foi primeiro a igreja ambulante do Pr. Jesus, igreja sem teto, sem templo, sem horário programado para os cultos. Eram pregados sermões bem longos, (sermão da montanha), ou bem curtinhos (quem não tiver pecado que atire a primeira pedra…) Quem quisesse e fosse chamado por Jesus para ficar em tempo integral poderia (os discípulos). Esta igrejinha se espalhava aonde ele ia, deixava sempre um representante local depois de uma campanha de impacto (o gadareno, a mulher samaritana) e ia edificando sua teologia na medida que as questões eram apresentadas (os vendilhões no templo, o maior no reino dos céus). Tinha campanhas de oração mas o pastor não obrigava ninguém a ir, ele mesmo ia e enfrentava noites de suor de sangue batalhando em oração (getsêmani). Tinha sua expressão missionária, com uma missiologia de adaptação e aceitação cultural bem elaborada que proclamava o evangelho mas que não se preocupava muito com o processo de fortalecimento dos convertidos ou discipulado (o envio dos doze, o envio dos setenta). O final foi de aparente fracasso com o pastor morrendo de morte infame e os discípulos se espalhando desanimados por aí… Mas o verdadeiro final… este todos nós conhecemos e somos produtos do tremendo sucesso que foi.

Isto quer dizer então que temos que seguir exatamente este modelo de Jesus? Temos que desinformalizar nossas igrejas e sair por aí? Muitos apregoam esta volta ao modelo da igreja de Atos, ao modelo de Paulo e os apóstolos e até ao estilo de Jesus. Mas não acredito que seja este o caminho. A intenção de Deus ao permitir que nós conhecêssemos o modelo de Jesus e também de Paulo e dos apóstolos da igreja primitiva não era estabelecer paradigmas culturais e sociais que pudessem ser copiados pela igreja de outras eras e tempos. Se fosse assim Deus estaria contradizendo-se a si mesmo.

Qual é a intenção “secreta” de Deus? “Deus me mostrou seu plano secreto e me fez conhecê-lo. (Eu escrevi isto em poucas palavras e, se vocês lerem o que eu escrevi, poderão saber como entendo o segredo de Cristo.)… O segredo é este: por meio do evangelho os não-judeus têm parte com os judeus nas bençãos divinas. Eles são membros do mesmo corpo e participam da promessa que Deus fez por meio de Cristo Jesus… E também me deu o privilégio de fazer que todos vejam como funciona o plano secreto de Deus. Por que ele que criou tudo, guardou o seu segredo em todos os tempos. E foi assim para que agora, por meio da Igreja, as autoridades e os poderes angélicos do mundo celestial conheçam a sabedoria de Deus em todas as suas formas.” Ef3:3,4,6,9,10. BLH.

Será que o fato de ter a igreja neo-testamentária sido apenas uma cópia da sinagoga judaica, e de uma equipe evangelísitica judaica significa que a cultura judaica era melhor que as outras por isto Deus permitiu que ela fosse reproduzida onde os discípulos preagaram? Creio que não. Se isto fosse verdade teríamos que dizer que a língua grega também é superior porque foi usada por Deus para escrever o Novo Testamento e teve até termos pagãos como kurios incorporados nos escritos dos primeiros cristãos.

Qual é o padrão que percebemos nisto? Não é certamente que Deus despreza algumas culturas em favor de outras, mas que ele usa os padrões socio-culturais disponíveis para que seu evangelho se encaixe, se adapte, se torne efetivo e relevante. O Cristianismo é considerado pelos historiadores como a religião que mais se adapta a diferentes culturas, línguas e padrões sociais e que mais absorve estas adaptações na história humana…Não creio que seja à toa que não vemos na Bíblia muitas definições categóricas à respeito da organização social e estrutural para igrejas e agências, para a modalidade e para a sodalidade… Temos que seguir princípios e não formas…

Copiar formas é relativamente fácil. O difícil é encontrar as formas culturais adequadas e relevantes para manifestar Deus aos homens… Paulo entendeu perfeitamente este “segredo”de Deus porque ele transitou entre várias culturas diferentes e viu a ação de Deus se processar transculturalmente, supra-cultural que ela é, se tornando multi-cultural, e não judaica, portanto multi-forme. Deus é o Deus universal, Deus da diversidade e não da uniformidade…


Uma questão de vida ou morte

Uma boa estratégia para as nossas modalidades e sodalidades atuais é hoje uma questão de vida ou morte. Não vida ou morte nossa apenas mas das almas perdidas por este mundo afora sem Cristo.
A falta de estratégias de parceria efetiva tem limitado nosso poder de fogo. Quanto mais poderíamos realizar se a nossa mentalidade não seguisse a mentalidade corporativista mundana mas seguisse a mentalidade do reino de Deus!! Jesus orou para que pudéssemos ser um. Ser um não significa ser igual, mas significa unidade na diversidade. Um completando o outro, cada um na sua função.


Corpovativismo religioso X Unidade

Porque sentimos necessidade de ter o nosso própio reino auto-suficiente, ignorando outros que já estão fazendo o mesmo trabalho, desprezando o know-how que foi alcançado através de muito esforço pelas missões em anos de trabalho focalizado? Por que temos que reinventar a roda?
Creio que seja porque ainda não estamos vivendo os princípios de Romanos 12 (mas transformai-vos pela renovação da vossa mente) completamente. Muito da mentalidade mundana empresarial ainda povoa nossa maneira de gerenciar nossas igrejas ou agências missionárias. Que semelhança existe entre o corporativismo, policiado apenas pela coesão de interesses, que vemos no mercado brasileiro em alguns setores, e a unidade com o corpo de Cristo, que teríamos de cultivar? Corporativismo: sistema político e econômico baseado na arregimentação das classes produtoras que, organizadas em corporações, trabalham para seu lucro próprio.

A unidade foi considerada por Jesus como a questão de maior importância para que o mundo viesse a conhecer o verdadeiro evangelho. No entanto vemos na igreja uma tendência para a fragmentação e isolamento das iniciativas de alcance ao mundo. Parece uma contradição. Dizemos que temos uma revelação mais “pura” da verdade do que a que a igreja Católica apresenta, no entanto nós somos os divididos enquanto eles permanecem juntos como uma só instituição.

Podemos achar inúmeras justificativas para isto. Podemos ter unidade na diversidade… Instituições humanas são falhas e não pretendem apresentar algum modelo divino aos homens… Através da própria separação institucional podemos alcançar o mundo com mais efetividade, etc.

Na verdade a separação institucional, desde que mantendo a unidade, teria o fim positivo de nos livrar de um mal do qual a igreja Católica Romana sofre desde seus primórdios: o corporativismo. Ou seja o corpo se torna um fim em si mesmo. Começamos a preferir a instituição mantida, ainda que à custa de nossa tarefa principal. Trabalhamos em função de aumentar nosso poder de controle e nosso “mercado”. Queremos que o nosso “nome” seja reconhecido e trabalhamos em favor de espalhar este nome.
Nós cristãos, já separados por diversos ventos doutrinários, teríamos o privilégio de conservar nossa teologia pessoal e ainda amarmos e valorizarmos as pessoas, também membros do corpo. A liberdade de diferir nos pensamento deveria funcionar como um veículo da unidade. Sem a pressão de achar que o evangelho deveria nos uniformizar no pensamento seríamos livres para amar nosso semelhante cristão e apreciar sua participação diferenciada no multiforme e sábio reino de Deus.

O que nos acontece é, no entanto, ficamos presos numa prisão maior, ao invés de termos esta suposta liberdade. Ou na verdade melhor dizendo uma prisão menor. Nossas denominações se tornam pequenas ilhas de “Verdade Absoluta”. Nos tornamos escravos deste “corpinho” de Cristo, enjaulados por uma visão de Deus vinda de uma janelinha, ao invés de gozarmos com Ele da liberdade de amar a todos e de nos enriquecermos com outras perpectivas.

E pior, como a própria igreja Católica às vezes fazemos da nossa própria unidade em Cristo uma falsa-unidade corporativista ao invés da unidade verdadeira… Até os que conseguem se inter-denominacionalizar e abrir sua alma às diferenças, se tornam presos de um corporativismo religioso concebendo o reino de Deus apenas nos limites da nossa própria instituição, nossas estratégias, nosso entendimento. Só o lugar no qual trabalhamos, e as igrejas com as quais nos relacionamos são “reino”.Só invisto naquilo que vai me dar retorno direto. Qualquer outra coisa que diverge disto está fora do “reino” porque não está contribuindo para o meu reino particular.


Quais são as características do corporativismo?

- Lucro próprio. Em primeiro lugar uma mentalidade empresarial, corporativista ou mundana como queiramos chamá-la, visa sua própria barriga. Se não tem um retorno certo para si, não se motiva a investir. Este retorno pode vir de muitas formas; fama, nome, dízimos, etc.



- Necessidade de controle. Controle é uma necessidade de quem visa lucros. “- Não tenho como me assegurar do sucesso de meu projeto se não posso controlá-lo diretamente…” É assim que pensam os empresários. “- Não tenho como me assegurar de que a minha verdade será proclamada corretamente se não tenho liderança direta sobre os projetos…” É assim que pensam muitos religiosos.



- Imediatismo ao invés de longo prazo. Esta é uma característica específica da cultura econômica brasileira. Vivendo por muitos anos debaixo da maldição da inflação os empresários se tornaram imediatistas, buscando lucros altos a curto prazo, ao invés de semear para colher aos poucos mas por muito tempo. Da mesma forma na cultura evangélica temos dificuldade de compreender compromissos de longo prazo com missões, preferindo investir em pequenos projetos de resultado imediato ao invés de arcar com responsabilidades financeiras com projetos missionários de longo prazo.



- Visão particular ao invés de visão geral. Esta característica em especial é muito danosa quando absorvida por “empresários” do reino de Deus. Pensamos sempre em termos de nosso próprio negócio, e não do projeto de Deus por inteiro. Não conseguimos enxergar as necessidades do reino e nos envolvemos com o que diz respeito apenas à nossa pequena empresa. Por exemplo se um bairro já é cheio de igrejas mas não tem uma congregação da nossa denominação o consideramos como um campo missionário para abrir mais uma congregação ao invés de, em parceria com as outras igrejas locais investirmos em projetos sociais por exemplo…




Características da Unidade

Será que preciso alistar aqui as virtudes da unidade cristã? Que tal se começarmos por:


- Abnegação. Visamos o “lucro” do reino e não o nosso pessoal. Ainda que este resultado para o reino venha à custa de esforço anônimo, investimento não reconhecido, etc.



- Humildade. Submetei-vos uns aos outros, diz a Bíblia. O controle é substituído por submissão mútua, respeito e espaço para que cada um dos parceiros desenvolva suas áreas ministeriais específicas.



- Visão de longo prazo. O reino de Deus, principalmente o trabalho missionário transcultural, o ir-se aos confins da terra, onde o evangelho ainda não foi pregado, não se faz da noite para o dia, mas sim com compromisso de longo prazo. Temos que entender que a maioria dos resultados só vamos ver com Deus no céus…



- Visão geral. Em unidade não vemos o reino de Deus dentro da caixa de nosso nome, mas o vemos como um todo. Com isto não competimos mas sim dividimos esforços.




Mea Culpa

Não podia terminar este artigo sem incorporar como membro da sodalidade que sou, meu sincero arrependimento pelo comportamento que nós temos tido como agências missionárias no Brasil.
Temos sido independentes, orgulhosos, tentado ser auto-suficientes em muitas áreas e uma delas é o cuidado pastoral de nossos obreiros. Temos deixado de falar com a a igreja local sobre nossas derrotas e fracassos e principalmente deixado de reportar aos primeiros sinais de problema, o que nos evitaria, quem sabe, algumas destas derrotas e fracassos.
Temos excluído a participação das igrejas nas nossas estratégias de campo, com medo talvez de interferências que não fossem missiológicamente corretas. Mas esta atitude nos impediu de receber muitas idéias boas e estratégias de Deus, e com certeza enfraqueceu nossas parcerias.

Temos dado a impressão de que tudo o que queremos da igreja é o dinheiro. “-Dê-nos sua grana e nos deixe em paz!” Numa atitude arrogante e mercenária, mas que com certeza não expressa nosso coração que deixou tudo o que podíamos ter, carreiras e dinheiro, pela obra! Acho que o que nos faz parecer gananciosos às vezes é a urgência das necessidades a que atendemos, a carência da obra missionária em geral. Mas deixo este julgamento com Deus… Perdoem-nos irmãos. Somos todos membros da mesma ecclesia! Todos participantes do mesmo Cristo. Um é olho, outro é cabeça, outro é orelha, mas funcionamos como um corpo. Um pertence ao outro. Pertencemos a vocês.
Vamos trabalhar em parceria, em uma perfeita simbiose cristã, para que possamos apressar a vinda de Cristo.
Parceria ou morte!!

Leia o post original em www.jocum.org.br.

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SOBRE O AUTOR

Douglas Hugentobler

Douglas é o diretor acadêmico da Universidade das Nações em Worcester, África do Sul. Ele faz parte da liderança da Jocum em Worcester, onde mora há 16 anos junto com sua esposa e filhas.

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